domingo, 9 de setembro de 2012

Concerto de Chrysta Bell


Fui ontem ao Lux assistir à performance de Chrysta Bell, apresentada como a mais recente criação do realizador David Lynch. Confesso que achei o conceito curioso e interessante: na era das concept store em que uma loja de antiguidades passa a ter uma cafetaria acoplada ou numa altura em que o branding de certas marcas, como a Michelin ou a Pirelli, quase que se sobrepõe aos produtos da marca original; pois nesse contexto pareceu-me pertinente que um realizador se atrevesse a encenar um concerto musical.


Portanto, ao nível da ideia a coisa prometia até porque os filmes do David Lynch deram-me acesso a bandas sonoras tornadas míticas como a do Lost Highway.


Lá estava então no piso de baixo do Lux ansioso por descobrir tamanha musa inspiradora. E lá chegou, a esbelta e bonita Chrysta Bell; de perna bem aberta para deixar evidenciar em contra luz os pormenores de uma silhueta irrepreensível; mas se na teoria tudo ali estava para garantir uma experiência memorável, na prática, tudo faltou.


Faltou atitude; faltou substância; personalidade; uma identidade.  Em vez disso, assistiu-se à encenação de uma personagem. Ali estava uma jovem bem parecida vinda do seu Texas natal, formatada para ter ali algo;  era fácil ler o guião que lhe fora seguramente aconselhado. Mas a verdade é que a Lolita, que agradecia pomposamente os aplausos de circunstância da plateia, soava aquilo que era: falsa. Fake.


Toda aquela personagem revelara-se um composto de fragmentos; todos eles com potencial mas que, na hora da partilha, não se substituem ao essencial nessas coisas que é a sensação de se estar a viver um momento de Verdade. Uma Verdade que nos transporta para os nossos próprios limites.  


Pois ali, naquele palco, nada disso existia. Estava uma miúda empenhada em sublinhar comportamentos caricaturais para ser confundida com uma personagem.


E se as personagens esculpidas pela mão de um realizador dão alma a um filme, já em palco acho que deve haver algo de mais genuíno. É essa partilha de algo especial e irrepetível que leva as pessoas a sair de casa para comungarem: Deve ali haver uma liturgia da Verdade: uma comunhão que parte de uma sinceridade partilhada ao vivo,  com risco e emoção.


No que me diz respeito acho que já temos personagens que chegue; já vivemos rodeados de demasiadas caricaturas; Já enjoamos imagens retocadas e edulcoradas. Repito, para mim, espero de um criador a capacidade de ir beber ao baú das contradições; o mesmo das dúvidas ou porque não ao baú da curiosidade: espero este esforço de pesquisa da substância vital e espero sinceridade e entrega na interpretação.


Haverá aqui lirismo a mais?


Será ilusório acreditar que, na era da partitura electrónica, o sumo da arte continua a estar dentro do peito e não for dele?


Teremos de aceitar que um produto acabado tem de chegar ao público limado e maquilhado?


Mais uma vez, voltamos ao mesmo: tudo depende daquilo que enquanto consumidores e actores das nossas vidas quisermos legitimar. Eu pactuo de bom grado com os carnavais urbanos mas sei que também aprecio perder-me em recantos chamados salas de espectáculo para que no espaço daquela missa caiam máscaras e se opere o milagre.

Amen.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O poder da beleza


Fui ontem ver “The Asphalt Jungle” à Cinemateca; um filme inserido no ciclo Marilyn, que procura assinalar os cinquenta anos da morte da actriz. Marilyn Monroe nunca exerceu especial fascínio em mim. No entanto, a história dela toca-me. Toca-me a imagem daquela mulher empenhada ao longo da sua carreira em ser algo mais do que uma miúda gira; tocam-me as sucessivas tentativas de se associar ao meio mais intelectual como que para conquistar o respeito mais do que a admiração. Mas mais do que tudo, aquilo que aquela mulher questiona em mim é a importância da beleza.

Por que razão toda e qualquer forma de poder gosta de se associar à beleza?

A ideia atravessa todos os quadrantes: da caricatura do empresário rico acompanhado da menina bonita aos presidentes ou antigos reis que procuram deixar como legado obras arquitectónicas memoráveis.

Aliás, recordo-me de ter ido visitar a colecção permanente da Gulbenkian e de ter atravessado salas repletas de objectos que tinham a vocação de retratar as principais culturas da humanidade: admirei faianças chinesas; kilims árabes; credências europeus... Um sem fim de peças, todas elas bonitas e refinadas. E dei por mim a notar que era, de facto, interessante ver como o que assinala a posteridade de uma cultura é uma determinada visão de beleza. Sabemos lá nós que proezas históricas estão a cargo dos Ming; quantos de nós conhecem seja o que for da cultura persa a não ser através dos tapetes?

Nesse sentido, torna-se interessante questionar que legados deixará a nossa época ao futuro: teremos rotundas com estátuas do Sócrates ou Passos Coelho dentro de cem anos?
Existirão manuais históricos a relatar os grandes feitos de Alexandre Soares dos Santos, rosto da Jerónimo Martins, e hoje homem mais rico de Portugal?

Mais do que isso, haverá interesse pessoal e colectivo em fazer destes actores do nosso presente, os rostos da nossa posteridade?

É interessante observar que a Miss Mundo 2012 é chinesa; no ano anterior fora angolana... Lá estamos nós novamente a querer instrumentalizar a beleza; a querer colá-la aos detentores de outros poderes como que para legitimar e facilitar a sua inclusão nas nossas vidas.

Eu, já me acomodei: reconheço que preciso de beleza na minha vida; procuro-a. No entanto,  tenho pena que os padrões que definem o belo sejam cada vez mais estandardizados; cada vez mais quantificáveis e previsíveis.... Gostava que o belo não fosse uma forma de legitimar mas sim uma forma de reinventar.  Gostava que, através da identificação daquilo que nos toca, fossemos capazes senão de inverter pelo menos de travar a inexorável deificação do poder do dinheiro.

Pobre Marilyn, sabias lá tu os devaneios que ainda me ias inspirar....

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A cobra


Devia ter paí uns dez anos; recordo-me de ter ido à Piscina Municipal num daqueles dias de calor abrasador; recordo-me de não ter querido dar parte fraca e de ter acompanhado o meu primo mais novo até à prancha dos cinco metros; recordo-me do medo que se apoderou de mim; recordo-me de não ter conseguido saltar; recordo-me de ter querido descer pelas escadas enfrentando as críticas de todos aqueles que as queriam subir...

25 anos mais tarde....

Recordo-me de estar num junco, um daqueles barcos turísticos em plena Baía de Halong, no Vietname, e de ao fim da tarde todos se terem querido refrescar na água; num misto de competição marialva e de autêntica liberdade, uns mais afoitos lembraram-se de querer saltar do topo da embarcação para dentro de água; recordo-me de ter feito parte desse primeiros que optaram por fazer antes de pensar... Recordo-me da sensação de libertação uma vez dentro de água

Há uma hora atrás

Estava dividido entre fazer ou não a minha ginástica semanal.  Estive ali a deixar engrossar aquele nó feito cobra no estômago. Conheço-a bem essa cobra. Não sei se é uma amiga se uma inimiga; mas sei que tenho vivido num combate diário com ela; é contra ela que tenho aprendido a superar-me; é com ela que tenho crescido.

Chega a parte das questões: 

Será inevitável esta guerra interior entre preguiça ou vontade de permanência e esforço ou necessidade de mudança?

Terá que ser sofrível essa transição do querer à acção?

Estarei condenado a agir sem pensar?

... O que é certo é que montei arraiais lá no topo da prancha de cinco metros; parece que continuo a viver na angústia de uma mudança tornada urgente. Só que desta vez,  o salto implica um trepar e não um deixar cair.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O pecado


Fui ontem jantar com um amigo. Um amigo cujo pai teve um AVC há cerca de um mês, em boa parte devido a uma vida condimentada de prazeres tabágicos e alcoólicos...

O tema ocupou parte do nosso serão, até porque o amigo em questão herdou os vícios do pai. Mas à nossa mesa estava ainda um terceiro convidado: aquele maço de tabaco.

A verdade é que deixei de fumar faz agora três anos. É o meu máximo. Por duas vezes antes desta, deixara de fumar por períodos de um ano. E a cada vez,  o regresso ao vício passava por aquele frágil instante em que sem querer pensar muito, pegava num cigarro, dizendo-me no intimo: já lá vai um ano; já deixaste de fumar; isto já não é uma ameaça para ti; já te podes dar a um pequeno e inconsequente prazer... Erro fatal.  Já que o contador voltara a zero, na semana seguinte “perdido por um, perdido por dois”. Então, dessa vez, já eram dois em vez de um. Pronto, daí a 4 dias, já são quatro, oito... e passado dois meses após aquele mísero primeiro cigarro, já estava a fumar um maço.

Este exemplo ilustra outros exemplos. Tenho em mim um fumador que coexiste de muito perto com um não fumador. Em mim vivem ainda homens casados e homens solteiros; patrões workaolic em potência com indigentes desmotivados.

É assustador sentir que o meu equilíbrio é algo de tão frágil. E por vezes questiono se não deveria também eu barricar-me atrás de uma rotina mais regrada. Vestir esta espécie de burca social que me iniba as pulsões. O que é certo que ando agora numa fase muito cordeiro: saudável; disciplinado; faço ginástica e tal... Mas começo a temer o bicho da tentação. Já estou com medo de mim.

Nesse sentido questiono-me. Seremos todos assim ou serei eu especialmente assim?... É que a capacidade viral e explosiva dessa caixa de Pandora é imensa.  Pode levar tudo na sua passagem.


Mas, já agora, não resisto a pôr em perspectiva esta minha faceta com a minha recente estadia em casa dos meus pais. O meu pai tem 68 anos e a minha mãe 65. São ambos pessoas activas e aquilo a que se chama jovens, para a idade deles: viajam, cuidam dos netos; cozinham; regam a relva; gerem o dia-a-dia. Um universo aparentemente terraplanado onde essa minha caixa de Pandora parece não existir.

Num canto da cozinha, reina neste pequeno império da normalidade, um enorme plasma que teima, à hora das refeições, em cuspir doses diárias de medo e mediocridade. E este microcosmos parece repetir-se pelas casas da vizinhança daquela rua pacata de uma normal cidade de província.

Estranhamente tudo aquilo gera-me alguma claustrofobia. O problema é que à semelhança do tal cigarro, fui-me, ao longo dos anos, habituando a ver nalgumas catarses mais sombrias uma espécie de libertação.

E agora questiono, será inevitável?

Haverá forma de viver a vida em pleno sem assumir esse meu lado mais nocturno?

Estará o problema no dito modelo de normalidade?

Pois não sei, mas sei que no dia de hoje, sinto um medo real de novamente perder o controle. Embora por outro lado, sinta precisamente o apelo da vertigem. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O amor


Não não, não pensem que isto vai cheirar a perfume: Este meu devaneio lírico terá seguramente mais o cheiro a suor...

Pois é, o amor...

Ainda não se inventou nada de melhor: pelo menos para inspirar artistas de todas as frentes... Acabei aliás de ler ainda ontem um romance do pai da expressão francesa bobo, contracção de bourgeois bohême. Frédéric Beigbeder, é um autor cáustico e, aqui*, partilha connosco a frustração de um Dom Juan que não consegue ir além dos três anos de relacionamento amoroso: um primeiro de paixão; um segundo mais ternurento e um terceiro já a olhar para o lado.

Segundo as revistas femininas citadas pelo nosso autor, parece que é tudo uma questão química. Portanto, o amor não seria nada mais do que uma valente dose de “drunfalhada” natural que eleva o nosso chamado bom senso para cima das nuvens.

O que é certo é que entre os meus amores salgados e algumas representações cinematográficas (...) do bicho, vai por vezes uma distância considerável. Aliás, confesso que sexo e amor estão, a meu ver, altamente sobrerrepresentados na película face à importância que calculo terem deste lado da câmara.

Mas já agora, de todos os mitos fundadores que os nosso artistas teimam em ventilar, diria que o mais tóxico é o do amor incondicional.  Sim, ao ver da grande arte romântica deste século (vá, e dos passados tb) o amor seria uma espécie de jackpot irreversível: bingo, caíste-lhe no goto... Agora é só curtir ... Até já te podes dar ao luxo de uma “bufita” debaixo dos lençóis; Agora que és MEU marido – ainda por cima firmámos o sacramento para a eternidade frente ao pessoal todo – pois agora, já podemos fazer do namoro uma coisa pós dias de festa!

Eu, na verdade, acho que este mito resulta da importação da noção de amor materno para a arena do amor romântico. É comum aprendermos a amar através das atenções que rodearam o nosso berço:  e é precisamente neste berço que nasce toda a prosa do amor incondicional que conduz muitos de nós até ao altar com os olhos a brilhar.

Pois eu, e sem especiais rancores, não acredito nessa teoria. Acho que o amor adulto é sempre uma coisa condicional: que depende do esforço; da capacidade de reinventar aquele corpo; aquela vida a dois; de dar gratuitamente; de aceitar as diferenças daquela pessoa; de não a querer domar ou moldar. O amor, para mim, vive da consciência da sua fragilidade e essência vaporosa... Não é algo que possamos explicar e muito menos fechar em conceitos absolutos.

Enfim, mas isto sou eu que gosto de viver sempre com uma janela aberta... Tem graça, eu aqui a criticar definições do amor e acabo precisamente por parir uma.

*”L’amour dure trois ans”, de Frédéric Beigbeder.