quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Mãe


Hoje a minha mãe faz anos.

Antecipa-se nestas palavras uma rasgada declaração de Amor. Com o maior A possível.

A minha mãe é a culpada por eu ter uma visão tão inteira do amor. É assim que ela me habituou a ser amado: por inteiro e sem concessões.

E vejam que amar por inteiro alguém equivale a aceitar nessa pessoa os defeitos que repudiamos em nós próprios. É tudo menos fácil. E neste caso em particular, atrevo-me a dizer que tenho sido, na vida da minha mãe, uma praxe constante.

O senão que esta dádiva implica é que a minha mãe dá por vezes aquilo de que precisa para ela: tempo, calma e força. Pressinto que aquele peito anda muitas vezes inquieto; pressinto que há muito que deixou de se cuidar para cuidar da tribo.

Estes braços sempre estendidos, ligados a umas costas doridas, são a imagem daquilo que não voltei a encontrar vida fora: dar, dar e ajudar.

Que castigo.

É nessas alturas, quando rememoro a minha mãe e que penso que nem eu, filho que tanto a ama, sou capaz de lhe aligeirar a mente; é nessas alturas, que se me rasga o peito.

Gostava tanto de poder trazer-lhe felicidade, ou pelo menos segurança e paz.

São estas as imagens pueris com que sonho quando me procuro investir no meu sucesso pessoal: ser capaz de devolver um pouco daquilo que recebi.

Sei que este aniversário ocorre num dia já de si especial. A minha mãe também é filha.  E a mãe da minha mãe encontra-se no Hospital. Não está bem: muito em virtude da irresponsabilidade kafkiana das formiguinhas de bata branca. E ver a minha mãe, a sentir-se impotente, por aqueles corredores a querer ajudar a própria mãe só torna mais sórdida a situação.  Porque sim, há que dizê-lo, lá está a Antónia feita última dos Moicanos a digladiar-se só com as não-respostas de funcionários.

E porque está a Antónia sozinha mais uma vez?

Porque todos têm as suas vidas; todos vivem num equilibrismo malabarista; todos acautelam a sobrevivência do aqui e agora e deixam o outro para depois: todos, menos a Antónia.

Eu, como filho da minha mãe, já sou feito de outra carne; já sou mais egoísta e tenho um cardápio de boas razões para o ser. Mas não deixo de observar com admiração esta mulher. É de facto heroico este comportamento.

É quando observo pessoas como a minha mãe que relativizo as grandes sagas nacionais; os grandes heróis que nos encarregamos de glorificar, ainda que já haja poucos.  De que me interessam estes protagonistas da História, altamente habitados por egos transbordantes, face ao heroísmo calado da minha mãe?

Portanto aqui vai, 

Ao desejar-te os meus parabéns mãe, comprometo-me intimamente em dar-te o amor com que me tens regado.  Esta tem sido a minha maior força e farei com que também seja a tua.  

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Round 1


Faz hoje um mês que dei inicio a este diário.

A ideia era a de desbloquear algo; neste caso a escrita. Desbloquear a capacidade de mandar algo para fora que não se resumisse a vento; era ainda o cultivar o prazer; prazer da escrita. Confesso que a esse nível a coisa foi, pode-se dizer, bem sucedida.  A tal ponto que chegou a ser uma necessidade: Quer pelo facto de dar estrutura a algumas reflexões como principalmente por permitir domar a minha necessidade de falar.

Sinto, embora isto seja tudo muito recente e de algum modo residual, que este espaço de palavras ajuda-me a ter partilhas mais equilibradas com o meu circulo social.

Agora o que, em substância, nnus para outras pessoas. Ta de trasnferir  e de algum modo residual, que este espaço de palavras ajuda-me a ter partilhas mais eão mudou foi a minha necessidade de validação. Se até então usava amigos e próximos sinto agora a vontade de transferir esse ónus para outras pessoas; mas no fundo, não altera o facto de ter uma extrema dificuldade em escrever aqui, como se de um diário se tratasse, sem ansiar que este remate sirva para abrir o jogo.

Não sei se isso é mau: reconheço que gostaria de saber fazer as coisas mais para mim; sem ter essa eterna e cansativa necessidade de pontapear a bola em pleno campo. Mas, por outro lado, dou por mim a questionar se é assim tão negativo eu ser feito dessa substância: eu ser um ser gregário que precisa do outro para existir.

Nesse sentido, ao longo deste mês, observei várias fases: a primeira, a que chamarei aqui a adolescência da coisa, era a de não partilhar o blog com ninguém; no intimo, devia achar que um dia, um critico literário iria dar de caras com esta pérola do pensamento e iria projetar-me para a glória tal uma Cinderela moderna. Não aconteceu; então, optei por começar a dar o link a uns amigos. Sim e tal, fazes bem mas confrontou-me ao facto de que, tal como eu, as pessoas têm as suas vidas e não precisam desta bica de sabedoria para sobreviver. E já mais recentemente,  criei um perfil no twitter. Cheguei a ter 19 amigos, tenho lá agora uns 17, em que metade são empresas.

O bom da coisa é eu estar mais próximo e consciente de mim e dos outros. O balanço é positivo. Bastante até.

Mas... Sim, tinha de vir o mas.

Mas, aproveito para me espantar com os meus vizinhos da blogosfera. Não é, em bom rigor, estranho o débil feed back que o meu blogue possa ter gerado nomeadamente através do twitter porque pelo que vejo, os meus compadres blogueiros estão mais empenhados em debater a actualidade. 
Eu, também gosto da dita. Mas, já agora, se me é dado um suporte onde posso desviar o olhar e multiplicar as abordagens, quiçá ache, pelo menos para já, mais graça a perder-me por registos mais pessoais do que parafrasear as breves jornalísticas.

Além do mais, devo confessar, que a crise e toda a parafernália do apocalipse já me entedia. Estou-me basicamente nas tintas para o Passos Coelho.  O que não invalida que assuma as minhas responsabilidades enquanto cidadão. Mas vir aqui ocupar o meu tempo ocioso com divagações cunícolas, já é pedir-me muito.

... Pronto, está feito o Sim, está feito o Mas: venha agora o round 2.


sábado, 22 de setembro de 2012

O Mediterrâneo


Desde sempre que o Mediterrâneo me tem falado. Não menos até do que a Europa, que corresponde a uma espécie de construção política com contornos por vezes incertos. Perguntem-me o que me liga a um polaco, e ver-me-ei com dificuldades em responder.

Já no caso do Mediterrâneo, revejo uma continuidade cultural muito mais natural. Desde a fisionomia à arquitectura passando pelas paisagens ou sabores. Faz, para mim, todo o sentido falar-se em cultura do Mediterrâneo.

Daí que quando há uns anos o então recém-empossado presidente Sarkozy se lembrou de falar na criação de uma União dos Países do Mediterrâneo a coisa tivesse feito todo o sentido para mim.  Fora infelizmente um projecto abortado no meio de muitos pela degradação da conjuntura mundial.

Essa União procurava, em bom rigor, contornar a espinhosa questão da integração turca na UE. Mas continha em si um germe que merece reflexão e que nasceu do pensamento de um dos homens mais sábios da nossa modernidade: o biólogo e filósofo Albert Jacquard. A ideia, introduzida em tempos por esta que é das figuras mais acarinhadas pela opinião pública francesa,  reside na vontade e necessidade de capitalizar as pontes culturais que ligam o Norte de África à Europa do Sul.

A título de exemplo, vejamos as tendências demográficas de um país como o Egipto. Nos últimos 50 anos, a população mais que triplicou e há previsões para que passe dos actuais 80 milhões para os 150 nos próximos 20 anos. Isso, necessariamente ligado à escassez de recursos e a níveis de instrução cada vez mais baixos. Compare-se essa realidade ao bunker europeu, cada vez menos povoado e cada vez mais instruído.  Antecipam-se aqui grandes núcleos de tensão de que as actuais tendências migratórias já são expressão.

A cultura surge aqui como forma de, desde logo, sublinhar as similitudes onde, de outra forma, nos ficaríamos pelas diferenças; diferenças que são geralmente assimiladas pela via da caricatura. Veja-se a questão da recente polémica sobre o suposto filme que denigre a figura do profeta. Claro está que os populismos religiosos se apressaram de resumir a figura do americano à imagem do herege enquanto do lado de cá muitos continuam a olhar para os árabes como um bando de aiatolás chalados.

Muito pode e deve ser feito: avizinham-se grandes núcleos de tensão aos quais todos estamos expostos.

Contudo, veja-se a juventude que encorpou as revoluções árabes e comparem-se as aspirações da mesma com os slogans dos indignados espanhóis, portugueses ou gregos... Há uma convergência possível e acredito que a bacia mediterrânica tenha agora uma excelente oportunidade de voltar a ser o berço de uma fusão de culturas, filhas de uma mesma época.

NB: Já agora, questiono como é que em Lisboa se tem um Museu que recorda as nossas ligações históricas ao Oriente e continuemos a não dispor de um espaço de aproximação com os países nossos vizinhos do continente africano.  



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O dinheiro


Como já aqui disse, já vai havendo um certo tempo que vivo com muito pouco dinheiro; nem sempre foi assim.

O não ter dinheiro oferece algumas vantagens; das mais interessantes é a transparência. Passa a haver um conjunto de cenários  em que deixamos de ser vistos: por exemplo, se entrar numa loja cara, os empregados não apenas não cumprimentam como prosseguem as criticas ao patrão.  E lá estamos nós, de repente, convidados para os bastidores daquele espaço. Recorda-me aquelas conversas de adultos que se tinha em frente às crianças por elas alegadamente não perceberem nada.

Wrong: lembro-me de tudo.

Mas é claro que o não ter dinheiro também convida na minha vida um conjunto de inconvenientes. O principal é de longe a erosão da autoestima. Quiçá pelos modelos com que cresci, sei que fui formatado para ser naturalmente bem sucedido; ou seja, para ter algum Poder económico. Pois acreditem que acoplada ao tempo livre que acompanha geralmente essas situações, a falta de dinheiro, tem uma tremenda capacidade corrosiva. Se não consegues sequer ir além das tuas necessidades básicas, qual a tua mais-valia?

Mas mesmo além das minhas pequenas vicissitudes financeiras, o dinheiro continua a ser um tema verdadeiramente épico.  Principalmente para quem, como eu, nasceu dentro de uma cultura da meritocracia: uma lógica que formatava soldadinhos do sistema no pressuposto de que o esforço e a persistência eram a mais valiosa das moedas.  Pois a verdade é que cada vez mais observo, aqui à escala da nossa paróquia, que a posse  do vil metal vai mais de par com redes de influência, alguma manha e falta de moralidade.

Custa-me formular esta leitura, porque parece que ao fazê-lo, me inscrevo no role dos ressabiados; dos recalcados; dos que têm ciúmes; no fundo, dos que não foram a tempo de saltar para dentro do barco. E ainda não desisti de ter um dia a minha piscina plantada no meio das árvores.

Mas sim, reconheço que para mim o dinheiro deixou de estar predominantemente ligado à tal cultura do esforço e do mérito.

E se alargarmos a observação à escala da época mais do que à do espaço, veremos que a coisa ainda se torna mais escandalosamente amoral. Desde logo, comecemos por questionar quem são os detentores do capital em 2012?

Serão industriais?, serão sociedades que souberam dotar-se de um saber de vanguarda?

Pois não: são predominantemente detentores de recursos naturais: quer seja petróleo, gás, terras, metais preciosos.... Hoje em dia, as chamadas economias emergentes são essencialmente gestoras de rendas. E claro está que à frente da exploração dos recursos naturais, estão os herdeiros oligárquicos de umas dinastias opacas; os mesmos que só bebem champanhe a 2000 dólares a garrafa e por aí adiante. A esta nível, o dinheiro é um conceito; é algo de inócuo.  E esta é para mim, a melhor metáfora que define o dinheiro em 2012.

Não interessa de onde vem: interessa é tê-lo.

E este é um corolário que enterrou tudo à sua volta: foram-se os deuses; foram-se os heróis; foram-se ideologias políticas; ficou a sociedade do dinheiro.

Recordo-me de ter lido há tempos uma sondagem que listava as prioridades de vida dos jovens pelo mundo. Verificava-se que, com uma excepção, a totalidade dos países sondados - nos quais constavam todos os ditos emergentes - colocavam o ganhar dinheiro como objectivo numero um. Para trás ficava uma longa lista de sonhos imputáveis, na visão romântica, a jovens em início de vida.

Para a pequena história, fiquem a saber que o único pais que fugia a este triste constato era um país da Europa nórdica.

Sinto, ao terminar este texto, que estou a viver numa espécie de Titanic em lento processo de afundamento, em que mais do que nunca vigora a regra do Salve-se quem puder. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os óculos


Há uns anos, um amigo perguntava-me: porque é que não usas lentes?, nunca te ocorreu que te podes estar a esconder por detrás dos óculos?

A pergunta intrigou-me, de tal modo que ainda hoje me lembro dela. Quiçá haja alguma verdade nisso. O que é certo, é que tenho recentemente sentido uma necessidade de me livrar dos óculos. Comecei, por isso, a usar lentes de contacto e confesso que estes têm sido tempos de deslumbramento. Aquilo que mais me tem arrebatado nesta vida sem moldura é olhar para o céu; principalmente se for através dos ramos das árvores. Há ali uma intensidade e uma nitidez, principalmente na hora do lusco fusco. Aquele azul violáceo sempre foi a minha cor favorita, mas ali; e agora; ui.

Há mais beleza à minha volta mas há também mais rugas no espelho. Descobri por detrás dos óculos aquelas ruguinhas de volta dos olhos. 

Isto recorda-me a história da minha vizinha de cima que regressava há dias de uma temporada em casa da filha. Fiquei a saber que fora operada às cataratas. Mas naquele momento, não eram os olhos dela que preocupavam a dona Maria: eram as mãos.

Eu não tinha essas sardas todas. Olhe lá para estas mãos. Parecem mãos de velha. Aqui entre nós a dona Maria tem 86 anos e há já uns anos que as cataratas lhe vinham turvando as vistas fazendo dela uma espécie de artista surrealista.

Isto do desvendar a vista, desvenda também a memória. Lembro-me ainda de uma conversa ocorrida há já uns bons 15 anos com o Emídio; das raras pessoas que admirei nesta vida. O Emídio estudava física e um dia, aliás uma madrugada ressacada, o Emídio calara-me com esta: “o problema dos tipos das Ciências Sociais é que como não percebem nada dos fundamentos físicos da vida, partem logo para grandes viagens filosóficas”. Ainda que dito assim, possa parecer caricatural, era verdade. Talvez ainda seja.

Mas desengane-se quem concluir que estou aqui a fazer o elogio da objectividade. Não, um lírico não se refaz; continuo a preferir a dúvida à certeza; mas não impede que me agrada este contraste repentino; esta nitidez. Afinal era isto?; afinal este sou eu?

No entanto, continuo a gostar da minha miopia especialmente quando atravesso alguns bosques mais pornográficos da minha vida. Alguém aqui me explica que necessidade têm certas pessoas de se resumir a um genital em fotos de perfil de engate?; haverá necessidade de se ver tudo?, haverá um desejo proporcional à quantidade de pele que se exibe?

Duvido.

Aliás, sem me armar aqui no que não sou,  sei que continuo a desejar aquilo que menos vejo. Acho que a minha miopia fez de mim um ser meio fetichista. Gosto, por vezes, de só ver a sombra das coisas para poder imaginar o resto. Gosto de cultivar a minha – não a dos outros – caverna da alegoria de Platão; tentar descobrir o original através da sua sombra. Resta agora saber quem é em mim o original; se o tipo com óculos e sem rugas se o marmanjo que põe lentes de contacto para sair à rua como quem se maquilha antes de uma festa.