quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O baú


Estava há dias a conversar com a Carla,  a minha amiga refinada e espinhosa,  quando surgiu à tona a sua releitura do romance A Insustentável Leveza do Ser.  Já fora graças a uma dessas conversas que lera o ano passado Anna Karenina, e mais uma vez convenceu-me, sem querer, a também eu voltar a ler este romance que pensava já ter lido.  Pois se o li em tempos não o entendi nada.

Mas mais do que o romance em si cuja leitura se encontra em curso é mais neste pressuposto que sempre combati que me apetece aqui perder-me: a ideia de reler um livro já lido; voltar com mais calma a uma cidade já atravessada; voltar a dar tempo a velhos amigos com quem já não partilhamos muito há muito; tudo isso roça na minha cabeça de hiperativo a noção de desperdício.

É aliás uma coisa boa que quem tem filhos e netos acaba por saber muito bem. Viver a vida revivendo-a no outro: mais um primeiro dia de escola; mais um amor e um mundo que ali morre; mais os eu nunca e eu sempre... Tanto ciclo que nos atravessa e que nos esculpe o espírito e as vontades e que só percebemos quando deixamos de ser actor para ser espectador ou narrador.

Mas lá está, sou um rato urbano. Continuo a viver só; a olhar para o futuro como a dupla do Titanic de braços abertos; A ideia de um tempo em espiral quase que me priva de ar.  Até que surge assim um livro, uma conversa, uma memória que me confronta às minhas pressas passadas; àquilo que não soube ver ou saborear.

A verdade é que esses embates devolvem uma liberdade; a de saber que temos em nós uma biblioteca de experiências que poucas vezes sabemos consultar.  Tal como aqui dizia há dias, nem sempre o seguir em frente é a opção mais corajosa ou neste caso proveitosa.




terça-feira, 16 de outubro de 2012

A fome


A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está reunida esta semana para discutir novas soluções de combate à fome no mundo; mais um desses encontros que ocupam uma breve nos diários e que caem no caldeirão do esquecimento colectivo e individual em escassos segundos.
 
É pena, porque haveria em torno deste encontro muita matéria merecedora de alguma reflexão. Desde logo um dado bastante revelador: entre dois terços a três quartos dos 870 milhões de indivíduos que passam fome são agricultores.  Refiro-me aquele pequeno agricultor que dispõe de uma ou duas vacas. Um pequeno lavrador que tem de rivalizar com o leite em pó importado dos nossos países na hora em que procura vender o seu pequeno excedente para sobreviver. É que enquanto as suas duas vacas lhe dão dois litros de leite por dia, por detrás do leite em pó encontram-se vacas leiteiras que produzem mais de 27 litros de leite por dia e por vaca.

É fácil perceber que não há parte alguma do mundo em que se consiga rivalizar com os excedentes agrícolas dos nosso países em matéria de gado, cereais ou leite. E enquanto mantivermos este sistema estaremos a condenar este pequeno agricultor à pobreza ou a encher os barcos de imigrantes ilegais que rumam a Lampedusa.

A questão é aqui vista sob um prisma económico mas poderia ainda ser vista sob a lupa do meio ambiente. Não restam dúvidas que o nosso actual modelo de exploração agrícola (...) é absolutamente desajustado e torna-se urgente repensá-lo.

Só para sublinhar o absurdo da coisa, note-se que são necessários 200 quilos de cereais por pessoa e por ano para suprir às necessidades consideradas básicas e consequentemente não sofrer de carências alimentares. Produz-se hoje uma média de 330 quilos de cereais por pessoa, à escala planetária. E contudo, 870 milhões de indivíduos continuam a viver bem abaixo dos tais 200 quilos. 
Não se trata dos países ricos darem caridosamente os seus excedentes para suprir essas lacunas. Trata-se de assumirmos que em matéria agrícola é vital respeitar regras de protecionismo alimentar e económico, baseadas num regime de pequena e média agricultura de proximidade. Algo que os países hoje ditos em crise sempre combateram.

E isso, conduz-me ao ponto que eu queria com este texto aqui destacar: a crise.

Agora vou eu parafrasear os idosos da aldeia da minha avó: a crise?, mas que crise?

A crise está num modelo que faz também dos nossos pequenos e médios produtores agrícolas vítimas do sistema; a crise está em que quem tem menos dinheiro nos nossos países come hoje pior que os país comiam há uma geração; a crise está que a agricultura deixou de ser herdeira de tradições seculares; a crise está em que a agricultura deixou de garantir a coesão das comunidades. Esta sim é uma crise que nos merece um ajuste rápido e urgente.

Agora quem me fala em crise por não podermos garantir um suposto crescimento económico de dois ou três por cento ao ano que vá dizer isso ao pequeno agricultor africano. Em boa hora que há uma crise que nasceu do facto de novas economias mundiais estarem a emergir e com isso a sair da pobreza. Em boa hora que elas nos mostram aquilo de que têm sido vitimas e que é a consequência clara de uma cultura de sobre produção que não serve ninguém a não ser uma máfia de intermediárias que nos inundam com verdades económicas também elas empacotadas.  

O sufoco


Hoje quase que morri.

Coisa simples. Cozinhei bulgur e à segunda ou terceira garfada, percebi que a coisa se ia engarrafando lá dentro: ali, bem no meio do peito. Ao nível do plexo solar.

A aflição foi alguma, confesso.  Tentar relaxar, abrir o peito: nada.

Beber copo de água... ui. Pior.

Já de porta aberta, lá tentei um vómito que, não vindo, desbloqueou algo.

Ufa.

Não morri.

Maldito plexo solar. Quase me ias matando, sacana!

Dizem que o plexo solar, terceiro chakra, é a porta de entrada e saída das emoções. Devo andar com os sentimentos meio engasgadas.

... Recorda-me uma entrevista em que perguntava-se a um autor literário que morte preferiria ter caso lhe fosse dado escolher. “Queria morrer de pneumonia”, responde o autor, acrescentando “não há nada mais belo que morrer pelos pulmões”.

Pois meu caro autor, há pois: morrer engasgado pelo plexo solar. A parte do bulgur é que pode não constar dos anais.

Mas esta pequena incursão forçada à minha geografia interna veio recordar-me o quão frágil é tudo isto. Uma coisa tão absurda quanto uma garfada pode bastar para pôr fim a uma cosmologia de sonhos nascentes. Como é que não hei de ser um relativista convicto?

As coisas começam e acabam assim, do nada; é em parte o que lhes faz a beleza.

Querer anular o risco, anula também toda a magia que nasce dos acasos. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O casal da Procuradoria Geral da República


Desde que me mudei para Lisboa que me lembro de ver aquele casal estacionado à porta da Procuradoria Geral da República, em protesto contra uma alegada usurpação. Há ali naquela atitude algo que desafia todos os códigos da sensatez. É como se aquele homem, num determinado momento, habitado pela convicção de estar a ser injustiçado, tivesse feito uma jura interior de que não se deixaria abusar.

Há algo de corajoso nesta teimosia que resiste agora aos anos e às décadas. Tem nomeadamente o mérito de questionar transeuntes e condutores acerca das respectivas capacidades de combatividade.  Mas também há ali algo que me desconforta ao mais alto nível.

Quantas vezes no auge de uma irritação vislumbrei a possibilidade de levar até ao último reduto a minha capacidade de repor justiça naquela situação: hão-de-ver aquilo de que sou capaz. E lá me imaginava eu, ao termo de muitos esforços, a ver a minha persistência reconhecida. Casos houve em que sim valeu a pena, mas muitos houve em que a desistência venceu por não me querer alimentar mais daquele conflito.

No caso daquele casal, mesmo supondo que a causa deles seja justificada; supondo que amanhã o combate deles também seja reconhecido e resolvido: terá valido a pena?

Bem sei que este meu discurso pode ser aqui visto como derrotista; também sei que continuamos a educar os nossos filhos com estes credos do sonho comanda a vida e luta pelas tuas convicções. Eu também os cultivo no meu quotidiano mas também defendo a capacidade de fazer marcha atrás; e reconhecer que aquela opção foi um erro; de não insistir por um caminho que teima em se fechar a mim; quiçá a vida esteja apenas a querer mostrar-me que não há uma só forma de se ser feliz... E portanto face a este meu diletantismo reconheço que o empenho daquele casal afigura-se-me como uma vida desperdiçada em nome de um eu hei de lhes mostrar.

Saber desistir também pode ser bom; em última análise saber parar não tem de ser uma derrota tal como seguir em frente nem sempre é a solução mais corajosa.

Aqui fica, já agora, para trazer alguma factualidade a este relato, o porquê destes 17 anos de luta de Flora e Florindo Beja:

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=558996

domingo, 14 de outubro de 2012

O domingo


O domingo é aquele dia manhoso. Até para mim que vivo fora das autoestradas da vida, não deixo de sentir que este é tipo a dispensa da semana; aquele dia em que se arrumam os tupperwares tais como as papeladas ou fazer sopa para a semana.

Já quando era miúdo o domingo cheirava a ferro de engomar e a panela de pressão. Não era um dia especialmente bem disposto. Hoje, em substância pouca coisa mudou: para uns é o dia da ressaca; para outros o dia que antecipa a ressaca.

Na verdade era suposto ser dos melhores dias da semana mas o domingo só confirma a minha ideia de que o ser humano é mais apto a saborear a antecipação de um prazer do que a própria fruição do mesmo. Estarei eu a falar mais de mim do que de terceiros ao dizer isto?

....  Vou mas é sonhar.