quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O fim do Mundo


Estava aqui a rever estes meus desabafos mais recentes e dei-me conta que também eu faço hoje parte do gangue do apocalipse : ora acuso o homem de já não saber amar, ora a sociedade de se querer ver livre dos homens.

É certo que andamos a viver bombardeados com imagens de catástrofe e de fim do mundo, mas talvez seja oportuno questionar qual poderá ser a substância de uma nova génesis. 

Desde a queda do Muro de Berlim que se apregoa o fim da História - Francis Fukuyama – pela simples razão que o século XX deixou de ser capaz de sonhar novos mundos a não ser dentro de um registo binário e maniqueísta. Tendo caído um dos lados, a Europa e o modelo ocidental fizeram frente à falta de substância dos seus ideais. Não é aliás um acaso que o século XXI tenha nascido simbolicamente de outro colapso com a queda das Torres Gémeas.  

Em ambos os casos, continuámos a formular modelos que resultam de reacções míopes. O Ocidente deixou de saber sonhar futuro e deixou que esse espaço fosse sendo ocupado por uma tribo mundializada de especialistas.

O actual ciclo de aceleração temporal acoplado de uma dilatação do espaço tem de antecipar o “regresso” a um mapa mais humano.  

Impõe-se aqui uma economia real em detrimento de uma economia especulativa; um discurso político assente nos recursos existentes e numa noção progressista de bem comum; impõe-se ainda uma cultura solidário que inverta o medo crescente do outro; o outro tem de “voltar” a ser co autor da minha felicidade.  

E, já agora, deixem-me sonhar e reabilitar o acaso e o risco. A bem do amor, da criatividade e da imprevisibilidade que fazem do ser humano uma fonte inesgotável de vida e criação. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A sociedade pós-biológica


Rescaldo de um serão tecnológico:  hoje foi a noite em que explorei a minha nova box da Iris; a tal que permite gravar ou programar gravações de séries e afins... É suposto ser um incremento de escolha e liberdade mas a verdade é que passei o serão a pré-formatar um conjunto de filtros e preferências que fazem de mim um míope cada vez mais exposto ao preconceito.

Este pequeno episódio trivial da vida de um solteirão barbudo faz eco a algumas teorias transumanistas às quais tenho andado sensível nestes últimos tempos.  Para os menos informados, o transumanismo ou pós humanismo consiste num conjunto de teorias que advogam que a humanidade está votada a superar os determinismos da biologia através da técnica; que a tecnologia será cada vez mais uma parte integrante do ser humano e das suas possibilidades. 

Se há pouco mais de dez anos, ainda achávamos que o telemóvel era coisa de trolha exibicionista, hoje já ninguém o dispensa: e digo isto, antes de evoluir para cenários futuros, precisamente para deixar claro que, por mais valores que possamos aqui defender, raros são aqueles que não estão expostos às necessidades futuras que a tecnologia procurará inculcar em cada um de nós: as promessas dos tecno profetas vão desde os apoios domiciliários a idosos solitários – robot de companhia cujo exemplo mais emblemático é a Matilda – a chips subcutâneos que estão ligados aos demais gadgets do nosso quotidiano. Atenção, precisa de beber mais água ou melhor ainda, aparece-lhe em casa uma ambulância do INEM depois do chip ter detectado um risco de AVC...

Parece-lhe um cenário de ficção científica, não é?

Pois não, não é. É algo de bem real. 

É aliás essa a guerra que se travam as nações desenvolvidas na antecipação das patentes do futuro; é também neste campo que se jogam os principais desafios na Silicon Valley: aí mesmo onde se implantou a Universidade da Singularidade - criada por Ray Kurzwell, guru do transumanismo – a dois passos da sede da NASA e logo ao lado da da Google. Sim, porque se estas teorias têm hoje tamanha pujança é porque têm por detrás um poderosíssimo lobby financiado pelas dot.com, ou seja por todos esses empresários que entendem que o mundo é informação.  Uma visão hoje alargada a um projecto ultra liberal de sociedade futura em que serão necessárias cada vez mais máquinas para conseguir dar resposta à aceleração do tempo e ao aumento das solicitações de quem aspirar a esta sociedade dos que conseguem.

Este é aliás um processo que já se encontra francamente adiantado.  Uma questão: quem detém mais informação sobre si?, a Google e o Facebook ou o Estado português?

Por detrás da resposta estão soluções de numerização de dados na génese da modelização tecnológica do Eu. As técnicas usadas passam precisamente  pelo cruzamento de uma sucessão gigantesca de algoritmos que o definem a Si, à semelhança das práticas que a Google usa para cada vez mais o identificar. Jamais aliás um Estado seria autorizado a cercá-lo de tão perto.

É claro que este é um processo que está na convergência de desafios políticos, éticos e científicos. Até porque um modelo de sociedade tecnológica que visa um incremento constante de capacidades, traduz-se necessariamente numa sociedade fracturada em duas partes bem distintas; de um lado os que podem, do outro os que não podem.  A relação que mantemos hoje face à tecnologia ilustra desde já esta fronteira: os que vivem a vida através de representações virtuais face aos que ainda conseguem vivê-la e apreciá-la in situ.

Termino, parafraseando a romancista e ensaísta Isabelle Sorente,  “o homem tornou-se o elo mais fraco da guerra do futuro”.  O homem ainda tem fome; tem frio; envelhece.

Fica a eterna questão de saber se o homem domina a tecnologia ou se a relação de força já está irreversivelmente invertida. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A inutilidade do amor


Quando o amor encontra a liberdade.

É um pouco assim que se poderia rebatizar o ensaio da socióloga Eva Ellouz, intitulado Why Love hurts.  O estudo demora-se sobre as mudanças sociais que explicam a crise do amor.

Em traços muito gerais o que é aqui dito é que a visão moderna do amor deixou de incluir uma paixão isenta de reflexão. A relação amorosa expõe hoje o sujeito ao sucesso e ao fracasso dado que o casal deixou de ser aquele parêntesis em que o amante se descarrega do peso da sua existência através do seu amor. Ao mesmo título que na rua ou na empresa, os critérios que hoje validam o interesse de uma relação passam por uma apreciação pragmática que leva ao esvaziamento da definição de paixão.

É pelo menos esta a análise da ensaísta israelita que introduz neste estudo um enquadramento histórico francamente interessante. Não apenas ficamos a saber que a palavra amor nasceu com o cristianismo – um amor monógamo para uma religião monoteísta – como o facto do modelo que agora entra em decadência ser uma herança do romantismo: uma altura em que o amor pautava-se por uma entrega menos calculada e em que o sofrimento, aqui amoroso, assumia a função de ajudar a um reconhecimento pessoal.  Nada a ver com o sofrimento contemporâneo tornado inútil pela era secular, liberal e técnica em que vivemos.

Sofrer não serve hoje para nada a não ser para destruir os alicerces da auto estima.

Um excelente exemplo do ultra pragmatismo a que esta visão não romântica conduziu é o filme Shame do realizador Steve McQueen.  O actor Michael Fassbender encarna um ser que consome numa sexualidade compulsiva a sua incapacidade de amar.  O amor conjugal ou romântico torna-se ali algo de profundamente inútil e sórdido; algo que não encaixa  nos preceitos utilitaristas daquele tipo bem sucedido da cidade financeira.

Depois de ter dessacralizado a devoção à pátria e a militância política, a modernidade celebra agora o fim da entrega amorosa.  É um fim triste que confronta o ser humano aos fundamentos da sua condição.  Tudo está agora por reinventar: deuses, heróis e homens. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O baú


Estava há dias a conversar com a Carla,  a minha amiga refinada e espinhosa,  quando surgiu à tona a sua releitura do romance A Insustentável Leveza do Ser.  Já fora graças a uma dessas conversas que lera o ano passado Anna Karenina, e mais uma vez convenceu-me, sem querer, a também eu voltar a ler este romance que pensava já ter lido.  Pois se o li em tempos não o entendi nada.

Mas mais do que o romance em si cuja leitura se encontra em curso é mais neste pressuposto que sempre combati que me apetece aqui perder-me: a ideia de reler um livro já lido; voltar com mais calma a uma cidade já atravessada; voltar a dar tempo a velhos amigos com quem já não partilhamos muito há muito; tudo isso roça na minha cabeça de hiperativo a noção de desperdício.

É aliás uma coisa boa que quem tem filhos e netos acaba por saber muito bem. Viver a vida revivendo-a no outro: mais um primeiro dia de escola; mais um amor e um mundo que ali morre; mais os eu nunca e eu sempre... Tanto ciclo que nos atravessa e que nos esculpe o espírito e as vontades e que só percebemos quando deixamos de ser actor para ser espectador ou narrador.

Mas lá está, sou um rato urbano. Continuo a viver só; a olhar para o futuro como a dupla do Titanic de braços abertos; A ideia de um tempo em espiral quase que me priva de ar.  Até que surge assim um livro, uma conversa, uma memória que me confronta às minhas pressas passadas; àquilo que não soube ver ou saborear.

A verdade é que esses embates devolvem uma liberdade; a de saber que temos em nós uma biblioteca de experiências que poucas vezes sabemos consultar.  Tal como aqui dizia há dias, nem sempre o seguir em frente é a opção mais corajosa ou neste caso proveitosa.




terça-feira, 16 de outubro de 2012

A fome


A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está reunida esta semana para discutir novas soluções de combate à fome no mundo; mais um desses encontros que ocupam uma breve nos diários e que caem no caldeirão do esquecimento colectivo e individual em escassos segundos.
 
É pena, porque haveria em torno deste encontro muita matéria merecedora de alguma reflexão. Desde logo um dado bastante revelador: entre dois terços a três quartos dos 870 milhões de indivíduos que passam fome são agricultores.  Refiro-me aquele pequeno agricultor que dispõe de uma ou duas vacas. Um pequeno lavrador que tem de rivalizar com o leite em pó importado dos nossos países na hora em que procura vender o seu pequeno excedente para sobreviver. É que enquanto as suas duas vacas lhe dão dois litros de leite por dia, por detrás do leite em pó encontram-se vacas leiteiras que produzem mais de 27 litros de leite por dia e por vaca.

É fácil perceber que não há parte alguma do mundo em que se consiga rivalizar com os excedentes agrícolas dos nosso países em matéria de gado, cereais ou leite. E enquanto mantivermos este sistema estaremos a condenar este pequeno agricultor à pobreza ou a encher os barcos de imigrantes ilegais que rumam a Lampedusa.

A questão é aqui vista sob um prisma económico mas poderia ainda ser vista sob a lupa do meio ambiente. Não restam dúvidas que o nosso actual modelo de exploração agrícola (...) é absolutamente desajustado e torna-se urgente repensá-lo.

Só para sublinhar o absurdo da coisa, note-se que são necessários 200 quilos de cereais por pessoa e por ano para suprir às necessidades consideradas básicas e consequentemente não sofrer de carências alimentares. Produz-se hoje uma média de 330 quilos de cereais por pessoa, à escala planetária. E contudo, 870 milhões de indivíduos continuam a viver bem abaixo dos tais 200 quilos. 
Não se trata dos países ricos darem caridosamente os seus excedentes para suprir essas lacunas. Trata-se de assumirmos que em matéria agrícola é vital respeitar regras de protecionismo alimentar e económico, baseadas num regime de pequena e média agricultura de proximidade. Algo que os países hoje ditos em crise sempre combateram.

E isso, conduz-me ao ponto que eu queria com este texto aqui destacar: a crise.

Agora vou eu parafrasear os idosos da aldeia da minha avó: a crise?, mas que crise?

A crise está num modelo que faz também dos nossos pequenos e médios produtores agrícolas vítimas do sistema; a crise está em que quem tem menos dinheiro nos nossos países come hoje pior que os país comiam há uma geração; a crise está que a agricultura deixou de ser herdeira de tradições seculares; a crise está em que a agricultura deixou de garantir a coesão das comunidades. Esta sim é uma crise que nos merece um ajuste rápido e urgente.

Agora quem me fala em crise por não podermos garantir um suposto crescimento económico de dois ou três por cento ao ano que vá dizer isso ao pequeno agricultor africano. Em boa hora que há uma crise que nasceu do facto de novas economias mundiais estarem a emergir e com isso a sair da pobreza. Em boa hora que elas nos mostram aquilo de que têm sido vitimas e que é a consequência clara de uma cultura de sobre produção que não serve ninguém a não ser uma máfia de intermediárias que nos inundam com verdades económicas também elas empacotadas.