sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Poortugal


Se eu fizesse uma peça de teatro

Recriaria um call center como cenário

Um espaço saturado de luz

Com uma janela que deixasse adivinhar a madrugada lá fora

Seria um espaço moderno e esquizóide

Tudo ali seria fragmento

Pedaços de pessoas e pedaços de conversas

Gostava de ali retratar uma galeria de precários

Desde empregadas de limpeza que atravessariam o espaço com um crioulo bem disposto

Até operadores telefónicos que aprendem a conhecer o vizinho entre duas conversas

Passando por interlocutores telefónicos solitários ou irados

Esta peça chamar-se-ia Poortugal

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sweet shops


Estava há dias a atravessar o Bairro Alto acompanhado por dois amigos e lá entrámos todos lampeiros numa destas lojas novas onde se vendem gomas e doces fora de horas.  E da mesma forma como nos surpreendemos com a ressurgência de prazeres infantis numa zona supostamente pouco dada a canduras voltei a dar com o espanto da minha vizinhança face à chegada de uma dessas lojas aqui no fim da rua.

Deixem-me já pôr cobro ao mistério do sweet power.  Na verdade, o que se passa é que estas lojas estão directamente acopladas às smart shops, lojas onde se vendem todo o tipo de drogas; em causa estão adubos e fármacos legais que aqui remisturados funcionam como estimulantes. Um dos pressupostos desses produtos é não serem misturados com álcool podendo, isso sim, ser associados a doces cujo açúcar até potencia os efeitos.

Esta é uma realidade que marca hoje presença nos centros das cidades mas que continua a passar totalmente despercebida por quem não seja iniciado aos códigos das novas tribos urbanas. Enquanto pais se mantêm preocupados com substâncias da sua juventude como álcool, charros e drogas ditas duras a verdade é que aquilo que lhes poderia merecer efectiva preocupação lhes desperta até sorrisos ingénuos: uma loja de doces para adoçar as noites da rapaziada; mas que bom.

Estou aqui a falar de drogas como poderia falar de zonas e códigos de engate ou subterfúgios que fazem com que um quarto da nossa economia seja paralela. A verdade é que vivemos na era da rede; ou bem que se dominam os códigos e essa realidade torna-se aparente e expressiva ou passamos por ela como se não existisse. Não há dúvidas de que o paradigma quântico está hoje presente na forma como olhamos para a realidade. As coisas só existem face a observadores activos.

Haverá quem diga que estou aqui a complicar; que o que importa é que quem quiser ali ver na loja de gomas uma simples loja de gomas veja e quem a quiser usar noutros contextos pois que o faça; que dez bairros diferentes numa grande cidade valem mais do que um só grande bairro uniforme. 

Pois para mim a cidade é o ponto de convergência onde passa a ser possível fazer coisas novas com pessoas diferentes; crescer com a diferença do outro; deixar que cenários improváveis me abram portas para o desconhecido ao sabor dos acasos e não que seja o meu smartphone a brindar-me com mensagens patrocinadas que orientem os meus passos e supostas escolhas.

É isso; de certa maneira acho que esta lógica da rede já nasce de uma visão muito segmentada: ver o que se quer ver, falar a nichos de mercados, rodear-se de quem se pareça comigo, domesticar o risco...

Uiui... onde tu já vais

Pois é ... Vou mas é ali ao fim da rua adoçar o palato e deixar-me de "orwellices"

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O elogio do excesso


Esta coisa da psicologia positiva por vezes já enjoa. Em boa hora que há arte e a rua para nos libertarem deste credo politicamente correcto.

Às vezes é bom recordar que viver é morrer; que todas as teorias que possamos aqui inventar não invertem o facto de vivermos num funil que nos conduz para um fim inexorável; e que nesse sentido saber brincar com esse fim também pode ser uma boa forma de exorcizar esse determinismo do tempo que passa.

Eu sei que quando olho para representações oitentistas, nascidas da opulência, gabo-lhes aquela ligeireza; o prazer do fumo, da velocidade, do fast food, dos copos a mais.

Que bela celebração da vida. Se viver é morrer, pois morramos de tesão.

Porque é que os medicamentos só hão de servir para compensar lacunas; usemo-los para rebentar com a escala. Faça-se da normalidade algo de pequeno. Nem que seja só por uma noite que ilumine os dias.

Esta cultura do ócio tinha algo de saudável na justa medida em que a cultura ascética do equilíbrio pode hoje ter algo de desumano.

... Eu sei que estava há duas semanas a levar com os decibéis dos Six Organs of Admittance na Music Box e o que aquela intensidade despertou em mim foi a consciência do meu apego à ideia de verdade. Estava ali perante uns tipos que estavam sem especiais maneirismos a abrir as tripas em palco.  Fizeram-no por inteiro; sem concessões. Senti ali uma valente injeção de verdade; algo a que quem só procura o equilíbrio nesta vida não será tão sensível.

Chego hoje à conclusão que esta diferença tipifica dois tipos de pessoas: as que procuram o equilíbrio e as que não sabem viver sem este “sentimento” de verdade.

Claro que uma conclusão destas só pode ser caricatural mas não deixa de encerrar uma verdade para mim: o fútil poder ser, por vezes, tão mais útil que o útil.

Os montinhos da culpa


Desde sempre que sou assim: quando era miúdo, quem se atrevesse a enfiar a mão dentro da minha sacola, no meio das canetas de feltro sem tampa, de testes e rascunhos amarrotados e meio embebidos de tinta permanente lá ia encontrar os meus cadernos. 

As primeiras páginas eram sempre irrepreensíveis: a data sublinhada a régua, de encarnado; caligrafia cuidada, alíneas espaçados... Mas conforme continuasse a desfolhar o caderno, começavam a aparecer partes em branco que passado mais umas páginas se tornavam em páginas em branco; às tantas o caderno já era mais um deserto de espaço por preencher pontualmente habitado por um oásis de escrita, geralmente imputável a uma segunda de manhã voluntarista.

Por detrás desse estilo muito pessoal estava um miúdo que se aborrecia na escola; que achava um desperdício o ter de estar ali a passar para o caderno o que se dizia ou escrevia no quadro. Logo copias de outro caderno.

E lá levantava vôo. A técnica da hélice era das minhas favoritas: enfiar a caneta bic no orifício central da régua, cujo pequeno pino metálico já voara também ele, e pôr a régua a girar, girar, girar. Claro que não demorava muito em ser apanhado daí que a escola me tivesse igualmente ensinado a arte do playback, muito útil nas aulas de flauta: como fingir que estás ali quando estás para além de Bagdad.

E a coisa foi-se apurando: na faculdade, há quase que uma maioria de cadeiras à qual nunca pus os pés. Na altura, já o esquema era mais organizado: havia ali o “dealanço” das fotocópias. Alguém algures cravava o caderno a uma marrona, daqueles que até fazia sínteses dos apontamentos; o pessoal fotocopiava e tal e de véspera antes da frequência, pimba, lá apurava a técnica da leitura diagonal, precursora da era facebook. Claro que ia de directa pá frequência e pronto: esta, já está.

Em causa neste percurso brilhante está nomeadamente a minha tendência para adiar: já em idade adulta, cheguei a ter dossiês com recortes de imprensa por ler. A maior pilha sempre fora a das crónicas do Sousa Tavares. Sempre soube que estava ali um banco de saber a não deitar fora mas lá está: pode esperar não é; então que fique para mais tarde; tenho mais que fazer: voar.


Aqui estão eles, por todo o lado à minha volta: os montinhos. Quando olho para as revistas por ler; livros por terminar; lista de links em pastas de coisas por fazer; montes de recortes... Sinto que é uma vida por viver que está ali fragmentada em montinhos de migalhas feitos mausoléus da culpa; porque é disso que se trata. A certa altura o vôo já é uma fuga ao aqui por este só refletir o número de coisas que ficaram por fazer.


... Se me lembrei desta viagem foi por ter chegado ao pc hoje de manhã, e a coisa estar tão atulhada de janelas abertas, algumas há uma boa semana, que tive de passar para a minha lista de "links por ler" os endereços de modo a poder fechar aquilo tudo e reiniciar a besta encravada.

Se recordo tudo isto com um sorriso, também sei que a procastinação tem sido dos meus principais demónios. Conheço-lhe hoje o nome por ter sido diagnosticado hiperactivo; e este é um dos traços mais característicos daquilo que eu considero ser uma doença. Sei que tomo agora um drunfo e, do nada, deixo de olhar pás estrelas para olhar para a frente e pôr a locomotiva em marcha. Confesso que é uma paz; ser capaz de fazer coisas em vez de ficar sempre na berma da estrada a analisar e a sonhar.

Por isso, digo-vos aqui, viva a droga: não tenho saudades nenhumas destes meus montinhos da culpa.
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domingo, 4 de novembro de 2012

Os educados


Fui ontem à noite à Cinemateca ver o Amarcord do Fellini e lembrei-me de um comentário da minha mãe, dias depois de lhe ter dito que era gay. Tanta instrução, tanta experiência: se calhar se tivesses vivido noutros tempos ou noutras realidades mais simples, quiçá tivesses tido vontades também elas mais simples.

Este comentário fora-me dirigido com afecto e sem especiais censuras, e contrariando o discurso da época, subscrevo essa análise. O aumento do número de homossexuais nas grandes cidades não é mais para mim do que o aumento das condições que permitem a sua vivência. Em substância, se eu vivesse há cinquenta anos no meio rural há fortes probabilidades para que eu tivesse sido um homem casado com uma mulher e sem ser necessariamente recalcado; acredito que a frustração nasça mais da comparação do que de realidades potencialmente desajustadas.

Mas sem nos ficarmos na especificidade gay, aquilo que o Amarcord me espelhou foi a capacidade dos habitantes daquele burgo italiano dos anos cinquenta se ligarem para viverem em comunidade. E noto que o nosso actual modelo social enferma de um mal crónico a esse nível. Investimos, nas últimas décadas, na qualificação dos percursos individuais: emancipámo-nos; qualificámo-nos; direcionámos muitas das nossas vontades para a construção ou descoberta de um eu. Chegámos ao ponto em que o eu deixou de ser capaz de formar um nós.

As cidades estão cheias de gente formada solitária. Uma realidade aliás mais perceptível junto ao sexo feminino. O número de amigas que eu tenho que atravessam os trinta sem darem a mão a ninguém. Todas cheias de qualidades: giras, autónomas, espertas, com humor.

Quando nos ocorre falar dessa solidão afectiva confesso já nem saber que lhes diga. Elas bem que se questionam e repõem em causa mas eu acho é que à margem das inibições individuais acredito mesmo que haja um problema endémico à nossa sociedade. Há algo que deixou de funcionar: o outro com o seu role de diferenças e expectativas passou a ser um impeditivo para a plenitude do eu;  ou pior, a ideia de compromisso amoroso poder aqui assinalar o fim de um mundo de projeções idealizadas.

A isso acresce a tecnologia. Estamos todos neste preciso momento a olhar para um ecrã; é esta a nova comunicação; algo que se alimenta e que alimenta as nossas solidões.

Agora voltando ao Amarcord, não se pense que eu estou aqui a querer acordar o morto; sei que aqueles frescos inspirados de recordações da infância do Fellini são também eles embebidos de alguma idealização. Apenas noto que há um rácio inegável entre o grau de instrução e a propensão para uma vida solitária. Será de hoje?; será o próprio do ser humano enquanto ser pensante?

Acho que não.

Pego no exemplo do filósofo grego Epicuro, hoje tão mal conhecido. Na génese do seu  pensamento encontram-se três princípios: liberdade resultante de uma autonomia material; espaço para a introspecção e, por último, viver uma vida rodeado de amigos: este último ponto era aliás para o filósofo da felicidade e do prazer o aspecto principal da sua doutrina.

E também eu acho que não há vida que mereça ser vivida se não for partilhada.