quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O chat



Há vinte anos, passei uma noite em São Petersburgo
Recordo-me de dar com aquela concha púrpura ao cimo de umas escadas
Tudo ali era em tons de grená e com forte presença de veludos
Parecia estarmos a entrar num útero aconchegado


Esta memória ficou-me
E gostava que um dia dela nascesse algo



Nesse dia, abrirei um bar
Chamar-se-á o chat
Terá mesinhas redondas com um telefone pesado no centro
Cada mesa terá um número
E os telefones permitirão conversas cruzadas entre mesas

O chat será um espaço escuro
A púrpura russa dará lugar ao negro luso
Gostava que houvesse ali algo de burlesco
Que se zombasse ali do decoro de lá fora

O chat será um espaço de “entre-dois”
Aquela distância que separa o ver do não ver
Um espaço de insinuação
E por isso de recriação

Será um espaço nocturno à antiga
Da época em que a noite insinuava
Em que os relógios de pulso paravam
E em que se saía sem isqueiro no bolso



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A esquerda


Dia 14 de Novembro: é dia de mais um protesto a cargo de um colectivo apolítico.  Está visto que o político está intrincado na origem do mal e custa a ser reabilitado como parte da solução. E esta é uma constatação que varre todos os quadrantes ideológicos ainda que o desencanto me pareça estar mais instalado à esquerda.

Até porque noto que há todo um edifício ideológico por reinventar nessa dita esquerda. 

Primeiro, porque se quisermos ser rigorosos os imperativos do mercado que pautam a realpolitik são em muitos aspectos incompatíveis com um conjunto de valores dos primórdios.  Mas a verdade é que é preciso criar riqueza para a poder redistribuir daí que, ao final, sejam poucos aqueles que não façam dos empresários e demais investidores os primeiros parceiros na hora de definir estratégias, deixando questões ideológicas ou sociais para uma segunda fase.

Imagino que seja quase irrealizável um executivo político recém-empossado reformar as instituições no sentido de inverter esta relação de forças.

E porquê?

Pois em boa parte porque não há na Europa, neste caso, uma fiscalidade comum: isenções fiscais na Holanda, IRC a 13 por cento na Irlanda ou segredo bancário na Suíça para não falar sequer dos paraísos fiscais.

É claro que enquanto assim for nenhum político se atreve a deteriorar o seu quadro de incentivos fiscais; é claro também que enquanto assim for, o comum dos mortais observa com crescente desconfiança estes dois pesos e duas medias já que o assalariado por conta de outrem não consegue fugir de um cêntimo à crescente carga fiscal de que é alvo. 

Portanto, quando Angela Merkel vem a Portugal ou se fala em Bruxelas de esforços de contenção orçamental, acho que lhes falta entender que é preciso em simultâneo pensar nas reformas que devolvam à esfera política meios de contrapesar face ao poder económico. Algo que passa, no meu entender, pela necessidade de pelo menos dentro da Europa existirem regras que evitem que o capital possa circular de um modo tão opaco e tão afastado da economia real.

É aí que a questão ideológica deve ser resgatada: voltar a conectar Wall Street com Main Street.

De resto, há no campo da sociologia, uma problemática que deve ser assumida: a esquerda procura fazer a espargata entre os seus eleitorados tradicionais como as classes operárias por um lado e por outro um terciário globalizado a que pertencem muitos dos próprios representantes políticos. A verdade é que as vontades e percepções dos primeiros nem sempre coincidem com as dos segundos. E se olharmos para o ressurgimento dos populismos por toda a Europa perceberemos que é urgente voltar a olhar para as necessidades das bases sociais, principais vitimas da desregulação dos mercados, da abertura das fronteiras ou da centralização do discurso político.

Se não houver esse cuidado, não apenas ao nível do discurso mas da própria acção política, corre-se o risco dum divórcio litigioso entre eleitores e supostos representantes democráticos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A morte


O ano de 1999 foi o meu ano norte-americano: vivi-o em Saint Louis, cidade onde tive a minha estreia profissional. Já tinha passado um summer camp na Pensylvânia, no Moravian College, mas esta imersão no life style norte-americano com direito a ter de mobilar uma casa e comprar um carro ajudou-me a transcender as caricaturas com que normalmente olhamos para o outro lado do Atlântico.

Uma das muitas surpresas que os States me reservaram foi o haloween: um autêntico fenómeno local até porque lá, as cidades enfeitiçam-se de laranja com o mesmo aprumo que pelo natal. Mas a verdade é que o que fora ali exótico deixara de o ser no ano seguinte, quando já de volta a Portugal, me deparei com o mesmo haloween a de repente substituir-se em largas franjas da população ao tradicional dia de Todos os Santos.

Confesso que continuo a manter um especial desprezo por esta importação cultural por tudo o que ela possa aqui significar.  É mais um pretexto para comprarmos inutilidades coloridas e travestirmos um dia dedicado à  memória dos defuntos num carnaval de consumo.  Como se a tristeza, melancolia e saudade não tivesse lugar nas nossas cidades; é preciso celebrar a vida comprando-a.

A morte passou a fazer parte dos tabus da modernidade.

Eu sei que foi precisamente nesse mesmo ano de 99 que tive das ocasiões mais interessados de pensar a morte; isso porque trabalhava, na altura, numa multinacional cujos trabalhadores vinham também eles dos quatro cantos do planeta pelo que com frequência passávamos serões a conviver questionando singularidades locais.

E recordo-me que a atitude e os rituais que rodeavam a morte eram dos que mais se destacavam no meio de quotidianos e anseios já muito uniformizados. Lembro-me, por exemplo, de que em Marrocos, era suposto enterrar o corpo do morto enquanto ainda estivesse quente; uma tradição nascida de riscos de salubridade pública.  De modo que no norte de África o luto centra-se não em torno do defunto mas de volta da família em luto, servindo de pretexto para reabilitar partilhas e recordações ao longo de vários dias.

Já no norte da Europa, a vivência da morte já me parecera um processo bem mais púdico. O corpo é guardado numa pequena sala refrigerada da agência mortuária durante toda a semana que segue o óbito. Os familiares podem assim privar com os restos mortais até ao dia da cremação, em que o defunto é trazido da sala refrigerada para a sala de cremação, onde decorre uma pequena cerimónia ao longo da qual o corpo já não chega a ser destapado em público.

Mas voltando às mudanças com que se vai olhando para a morte nas nossas sociedades quer-me parecer que o facto do tempo que cada um reserva para o luto diminuir ser um fenómeno que vai de par com o deixar de reconhecer a utilidade da morte; como se a vida só fizesse sentido face a um presente futuro.

Recordo-me de ter visto em tempos um documentário no qual os seniores tokyoitas eram, mal chegava a idade da reforma, vigorosamente convidados a deixar os apartamentos de um vida em centro urbano. Daí rumavam para condomínios com relvados e casinhas bonitinhas para velhos, situados em ilhotas bem afastadas das cidades. Parece que a urbe mais povoada do mundo não dispõe de espaço para não trabalhadores.

Pois para mim, viver é morrer; esta coisa de se estar a crescer ou a envelhecer é, em substância, o mesmo fenómeno.  Por isso até acho saudável aquela prática comum no sudeste asiático de enterrar os mortos nos quintais e nos centros urbanos em vez de os amontoar em bunkers de cimento. Não digo que seja um modelo para levar à letra, mas acho importante que saibamos manter vivos rituais como o dia de Todos os Santos e não fazer da morte aquela coisa escondida nas últimas páginas da imprensa local ou nas traseiras das nossas cidades.

Porque se viver é morrer, saber viver também é, em certa medida, saber lidar com a morte.