sexta-feira, 23 de novembro de 2012

63,1 kg


Fui ontem pesar-me à balança e fiquei a saber que tinha perdido mais cinco quilos desde este verão além dos quatro já perdidos desde o inicio do ano. 

No meio do luto destes 15 por cento de eu dei por mim a questionar a importância do peso e da massa: Não tanto nesta perspectiva pessoal e intima mas mais na sua dimensão social...

E não resisto em partilhar aqui, este excerto da Insustentável Leveza do Ser a título de desabafo.

“...  Mas na verdade será o peso atroz e a leveza bela?

O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo,  a imagem do momento mais intenso da realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.

Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Que escolher então? O peso ou a leveza?”

 PS: Não, não estou doente.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

As cosmologias da psique


É interessante observar a forma como os espaços ocupam hoje o imaginário das pessoas nomeadamente na hora de pintar o quadro da felicidade.

Aqui no meu mais recente devaneio perdi-me em projeções futuras e dei por mim a povoar este imaginário de sítios mais do que de pessoas. Mas se eu questionar boa parte dos meus contemporâneos com uma pergunta do género se ganhasses o euromilhões que farias, é provável que a ou as casas constassem dos objetivos bem como algumas viagens. Dir-me-ão, as pessoas não são compráveis. É por isso natural que não constem da lista. Mas...

Deixo aqui as reticências como espaço individual de resposta.

Em que medida é que a projeção de um espaço interior e mental para um espaço de pedra e cale alivia o espírito?

É como se o espaço fosse aqui tido como a matriz absoluta do imutável; daquilo que nos devolve uma segurança face à impermanência.

Eu sei que tenho andado a surfar na net na tentativa de explorar um pouco o mundo do Serge Haroche, prémio nobel de física 2012 e que se tem notabilizado na identificação do objecto de estudo quântico.  Esta coisa do quântico é uma nebulosa na verdade. Mas de todas as definições que até hoje melhor souberam ilustrar a matriz quântica, destacaria esta: é como se o espaço e o tempo fossem os dois vértices de um lençol; a altura é o espaço, a largura o tempo. E digamos que na visão tradicional do espaço tempo, a interação entre estes dois conceitos afigura-se-nos como proporcional. Isso porque o homem consome sempre em simultâneo um espaço e um tempo vital.

A questão aqui é que este lençol nem sempre está irrepreensivelmente esticadinho. Na verdade até está sempre amarrotado, à semelhança de um lençol ondulado de onde se acabou de levantar da cama. Quer isso dizer que de acordo com o paradigma quântico, para se passar de um determinado ponto espácio-temporal para outro, nem sempre é preciso percorrer a distância espaço/tempo que os separa.  Isso porque existem “momentos” em que, no meio do lençol ondulado, dois pontos espácio-temporais se tocam. E esse toque corresponde a um corredor de espaço/tempo. 

Abre-se aqui uma porta para viagens no tempo e para um admirável mundo novo cujos principais entraves são os limites da nossa caixa craniana; da nossa necessidade de pensar dentro de balizas.

Além desses corredores, há também buracos negros, feitos ralos de bidé em fúria; que sugam tudo num efeito centrifugador imparável.

E se eu me perco aqui nesta espécie de viagem pseudo-científica é por achar que quanto mais vislumbro fundamentos científicos mais percebo que o macro é o espelho invertido do micro.  Olhar para as galáxias e para os átomos é para o humano, refém das suas balizas empíricas, a mesma coisa.
E nesse sentido, devo confessar que me continuo a espantar com o meu próprio espanto quando ganho a consciência dos meus buracos negros e dos meus atalhos espácio-temporais. Basta às vezes um cheiro e lá estou eu catapultado para a cozinha da minha infância ou para o caís matinal do comboio que me levava para a escola; e estou lá com uma intensidade sensorial desconcertante.

Soube aliás que a zona do cérebro onde se inscrevem as memórias oníricas é a mesma que a das memórias vividas. Daí que um pesadelo tenha o mesmo potencial corrosivo que um trauma vivido.  Claro que vendo isto de outra forma, um imaginário irrigado pode iluminar a célula de qualquer recluso, como nos mostra o Vagabundo das Estrelas do Jack London.

Pronto, está visto que hoje me perdi por aqui... Vim parar a este baldio da mente que não era nada daquilo que eu antecipava. Mas lá está, é esta minha imprevisibilidade que faz de mim um fragmento deste cosmos por vezes caótico, com buracos negros e a um cheiro de distância de uma criança de seis anos. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

13 . 9 . 2036 - 14:01



Há certos rituais que me pertencem que quase fazem de mim um tipo caricatural.

Dentro da minha personagem há assim umas perguntas vagamente recorrentes.

Uma delas, a mais memorável para certas pessoas, é esta coisa de convidar o meu interlocutor a fazer uma viagem para o futuro.

Como e onde te imaginas a 13 de Setembro de 2036, pelas 14:01?

Como imaginas a tua casa nessa altura?

Então e estarás só ou haverá aí marujo na costa?

A sério, parabéns, então e onde é que se conheceram?

E pronto, estão soltas as amarras no meio de gargalhadas e dúvidas.

Pois hoje sou eu que me vou sujeitar a essa psicologia de almanaque, precisamente por ter ainda ontem sugerido esta abordagem a um amigo.

Fiquemo-nos pela primeira: onde é que eu me imagino – não confundir com querer estar que isso já é outro jogo -  a 13 Setembro de 2036 ao início da tarde: data obviamente inventada há segundos.

Pois... Vamos aqui supor que seja um dia da semana ... Início de tarde devo estar a regressar do almoço ... diria que em Lisboa ...


... ainda que no entretanto tenha vivido fora novamente.

         - Ah, pois é Shiuu, tu ainda estás em 2013 é isso?, Não sabes de nada...
Pois, então por onde começar? Longa história pá. Nem sabes a vida que te aguarda

         - A sério?, conta-me lá já isso !!!

 - Pois, então digamos que no essencial continuas a ser uma espécie de Don Juan... Não no sentido carniceiro da coisa mas mais no sentido sonhador. Aliás a verdade é que és um tipo fresco. És um cota todo pintas, pá!

- Hum ...

- Bom, de resto continuas a mesma merda em matéria de organização ... Não há maneira porra. Queres morrer assim, é?

- Olha lá, meu cabrão... Tu nasceste de mim ... Vê lá se te acalmas senão acaba já aqui a brincadeira!

- Bom ... Vá lá que tens hoje melhor feitio ... Pudera também, há que dizê-lo, ainda vais morfar ...  Mas pronto, então hoje sexta-feira, apanhas-me a caminho ali do espaço... Sim, o espaço é uma antiga garagem reconvertida num pequeno open space logo a seguir a Alcântara onde trabalhas ... Bem sei que o que o que te interessa aqui é isso: saber o que é que estás a fazer não é?... Pois então, o teu negócio ainda está de pé. Só que são hoje três sócios e, na verdade, tu não és dos mais activos... Voltaste para o jornalismo depois de teres passado uma temporada em Bruxelas. Acho que gostas do que fazes... Ainda que continues totalmente habitado por dúvidas quanto ao amanhã... Estás sempre a dizer que precisas de mudar e tal mas, no fundo, orientas-te e o conforto de uma certa rotina não te é assim tão desagradável.

- Então e continuo ali a viver na minha gaiola dourada?

- Não... nada disso ... Vives com mais sete pessoas aqui, nesta casa... Optámos por comprar em conjunto este espaço já há oito anos... Foram preciso dois anos de obras... Foi um stress mas como vês valeu a pena. Estás tu, o Ian e a Gisela... Não, não faças perguntas que isso não entra aqui no joguinho... Está o João que voltou a estar sozinho e a Raquel com os filhos, fora quando o outro maluco se lembra de aparecer ... O espaço é brutal ... E ainda nem viste o jardim que passou a ser o teu ateliê... Sim porque entretanto, soltou-se aí algo nessas tuas mãos.  Descobriste aí um jardineiro que nem imaginas...

Mas olha, não vou poder ficar aqui a falar contigo porque ainda vou hoje de fim-de-semana. Vou lá abaixo, ter com o meu clã alentejano... Nem imaginas como me tem sabido bem estar em família... 

... Vá catraio, não tenhas pressa mas também não tenhas medo.