quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

ddtc?


Donde teclas?, como és? peso, altura? que procuras?, tens foto?

Eis a forma como o macho lusitano ostenta a sua mais bela plumagem; a ideia há de ser de fazer umas contas: mais por menos; comparam-se as mercadorias e temos negócio.

Não há, pelos tempos que correm, maior elogio do que ser desejado pelo seu peso em carne; ser tratado como um objecto é hoje o suprassumo do sucesso sexual. Portanto, ao final, é tudo uma questão de números e de rankings.

No topo dos must diria estar o músculo, o atributo fálico seguido da cara K47; no top less estão românticos, velhos e magrelas ou gordos.

A graça dentro de tudo isto é que se nos atermos às teorias vigentes, ouviremos que em matéria de sexo, as pessoas procuram quebrar a rotina e expandir o campo dos possíveis; contudo, se olharmos para a maioria dos sites de engate, veremos que por norma as procuras centram-se em clones do eu: tem de viver na minha cidade quando não é no mesmo bairro; mesma faixa etária; mesmo estatuto social; e se nos centrarmos na realidade gay, mesma tribo: gordos com gordos; velhos com velhos; giros com giros.

Há contudo espaço para os chamados backrooms, traseiras sombrias, em que o outro é resumido à sua função de coisa presente, de modo a permitir que projetemos todas as nossas fantasias nele; ali não interessa se o patrão se enrola com o empregado. Interessa que ambos aceitem ser usados e esquecidos.

Ao final, há aqui um sapiente cocktail entre adrenalina e desejo; há vontade de controlar o risco e ao mesmo tempo de se expor a ele. A catarse sexual é com frequência o tubo de escape das relações higiénicas.

Tempos houve em que obedeci a este padrão. Foi bom; mas agora é melhor.

Sem falsos moralismos, sempre tive como claro que este modelo expõe quem nele vive a uma constante necessidade de novidade paradoxalmente ligada à interiorização de padrões cada vez mais rígidos. Não é raro ver o passar dos anos traduzir-se numa procura crescente de fetichismo; e porque será?

Não se trata de ser bem ou mal: trata-se, para mim, de se ser arrastado para um efeito de centrifugação que coisifica tudo e todos na sua passagem.


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